Entrevista - Revista Fighter Magazine sobre Deficientes Visuais

1-Como foi o seu início nas artes marciais e que graduação você está na atualidade?

Ingressei no hapkido em 1989 e havia pouco tempo que tinha sido instituído na Bahia. Por curiosidade fui assistir aos treinos e acabei entrando e me apaixonando pela riqueza da arte. E assim prossegui treinando continuamente até me formar faixa preta em 1999 me tornando professor desde então. No inicio de 2008 fundei a Associação Phoenix de Hapkido. Hoje sou mestre e estou no 6° Dan.

2-Como foi iniciado este trabalho com deficientes visuais?

Há muitos anos tinha vontade de realizar esse tipo de trabalho, mas sentia que precisava de mais orientação. Então na faculdade de Educação Física tive a oportunidade de conhecer um professor que já ensinava capoeira a deficientes visuais há um tempo no Centro de Apoio Pedagógico aos deficientes visuais, e através das informações que ele me passou pude me inteirar de como funcionava o centro, entrei em contato com os diretores e pude instituir o Hapkido que até então não era nem conhecido lá.

3- Como você observa o uso das artes marciais para os deficientes visuais? Eles têm resultados positivos em termos mentais, somáticos e sociais?

A arte marcial instrui a defender mais do que a integridade física, aprende-se também a defender as idéias e os objetivos perante a sociedade e desenvolver o respeito ao próximo, autocontrole, através da elevação da compreensão do universo e de si mesmo e principalmente a autoconfiança. E se existe autoconfiança fica muito menos penoso executar as atividades diárias e a possuir independência, se relacionando muito melhor socialmente.

4- Existe uma metodologia especial ao se fazer um trabalho com deficientes visuais? Fale-nos sobre isso.

Não tenho um padrão determinado para as minhas aulas, tenho sim um planejamento, mas procuro sempre utilizar com eles pontos de referencias no ambiente e no próprio corpo para conseguirem se orientar e executar os movimentos com segurança e sem oferecer nenhum tipo de risco a si mesmo e aos outros. Além disso procuro explorar mais os outros sentidos que geralmente conseguem desenvolver mais , principalmente o tato, o toque que facilita muito na defesa pessoal.

5-Você colocou este trabalho com deficientes visuais na pratica do hapkido dentro do seu TCC (trabalho de conclusão de curso)? Comente sobre isso.

Sim, como me envolvi bastante com esse trabalho e de certa forma poderia falar com propriedade sobre ele, fiz o meu trabalho de conclusão de curso com o tema: “Benefícios do hapkido para os deficientes visuais”. Nele eu fiz uma introdução sobre o histórico do hapkido, descrevi metodologias de aulas, as minhas experiências pessoais, e os resultados que obtive. Com essa pesquisa também pude enriquecer meus conhecimentos sobre trabalhos com deficientes visuais em geral envolvendo esportes e atividades lúdicas e a origem que pode ter cada tipo de deficiência, sendo ela parcial ou total.

6- Quais foram as participações destes seus alunos em campeonatos de Hapkido?

Eles têm freqüentemente participado de apresentações e de exames de faixa. Além disso, participaram do Campeonato Brasileiro De Hapkido Sungja Do realizado aqui na Bahia, e no final de abril estaremos indo para o Campeonato Mundial de Hapkido Olímpico na cidade de Curitiba.

7-Explique como este trabalho condiciona os seus alunos com deficiência visual uma melhor abordagem lúdica da marcialidade.

Nós fazemos com que o momento da aula, além de um momento de aprendizagem seja também descontração. É importante tornar o aprendizado prazeroso através de atividades que sejam divertidas. As pessoas sempre relacionam ludicidade somente às crianças, enquanto na verdade vários jogos e atividades podem ser incluídos também em aulas com adultos, e quando mixados com o conteúdo da arte marcial torna-se ainda mais interessante trazendo sempre ótimos resultados. Vejo esse interesse através da imensa vontade que eles têm a cada aula de superar limites e quando percebem o que são capazes de fazer.

8-Você como graduando em Educação Física pretende levar essa atividade física de caráter especial para outros esportes?

Como educador físico eu pretendo sim instituir o trabalho de deficientes não só visuais mas auditivos, físicos em escolas e instituições especializadas. O principal papel do esporte na vida dessas pessoas será a inclusão social. Eles poderão sentir que também podem obter sucesso na vida por eles próprios. O esporte é um meio, uma ferramenta para que a sociedade perceba que o deficiente também possui grandes potencialidades. E quanto mais esse trabalho for disseminado mais trará boas repercussões e bons exemplos.

9-Quais os conselhos que você daria para todos aqueles que pretendem fazer um trabalho semelhante com deficientes visuais em outras artes marciais?

Inicialmente temos que ter consciência de uma coisa que apesar de ser clichê é a mais pura verdade: deve- se fazer o que ama pra ter a certeza que vai obter sucesso. Nada melhor do que trabalhar com prazer e colocar o máximo em cada pequeno detalhe. É natural que tenhamos insegurança em iniciar qualquer tipo de trabalho diferente da nossa rotina, porém o que temos sempre que ter em mente é a importância de encarar novos desafios, e assim fazendo vamos perceber o quanto poderemos mudar pra melhor a vida de alguém e é claro a nossa também. Porque nessa experiência o que posso afirmar com toda certeza é que tenho muito mais a aprender com eles do que eles comigo.

10-Deixe a sua mensagem final para os leitores da revista fighter magazine e os seus contatos pessoais.

Queria agradecer a oportunidade de expor a minha experiência que espero que possa servir de estímulo para outras pessoas que tem vontade de fazer trabalhos semelhantes ou outros tipos de trabalhos, pois existe uma infinidade de coisas que podem ser feitas para construir uma sociedade mais justa. Quem tiver algum interesse em obter mais informações sobre meu trabalho com deficientes visuais ou mesmo sobre o hapkido pode mandar emails para crisolitoassis@hotmail.com ou ligar para (71) 9157-3782/ 8180-115

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